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CARTA PARA A MINHA AVÓ ELVIRA


Bença vó.

Eu pensei muito se escreveria algo para a senhora, uma vez que não sabe ler e devido a idade avançada, a demência a faz muitas vezes nem nos reconhecer, mas não poderia deixar de dizer o quanto te amo.

Nem comecei a escrever direito e já estou me debulhando em lágrimas. Dizem que com o tempo a gente vai ficando mais manteiga derretida, mas eu acho que sempre fui.

Em julho deste ano descobrimos o seu câncer. Um câncer silencioso de pâncreas em seu estado mais avançado. Confesso que quando o médico me deu o diagnóstico eu senti as minhas pernas ficarem moles. Não queria acreditar que a minha vozinha de 91 anos estava com uma doença a qual me dá medo e que não tinha dado nenhum indicio, a não ser a pele amarelada a qual fez a levarmos para o hospital.

Eu pensei em escrever essa carta tantas vezes, mais do que consigo me lembrar, mas vê-la hoje incitou a escrita: tem que ser hoje. Faça uma homenagem com ela ainda viva e deixe as homenagens póstumas para parentes de longe.

Então decidi fazer uma carta de recordações. Minhas recordações para dizer a senhora que tenho ótimas lembranças e que sou muito grata por tudo o que a senhora fez por mim.

Me lembro das bolachas de nata as quais a senhora deixava uma fornada passar do ponto porque sabia que eu amava as mais torradinhas. Das massas de pão crua que me dava para que eu colocasse queijo e fritasse. Dos pães com bacon e torresmo que fazia para me agradar. Dos leites com noz moscada ralada na hora.

Dos seus óleos de cabelo que reclamava de eu mexer, mas sempre acaba me deixando usar. Da forma com que catava piolho em mim. Doía, mas hoje eu sei o quanto é trabalhoso procurar esses bichos. De quando furou a minha orelha com agulha e linha de costura.

Lembro dos diversos vestidos que você dava pra gente levar na costureira para fazer peças para mim e para a Brenda. Olhava várias vezes seu armário esperando para ver qual seria o próximo.

Quantas vezes nos deu dinheiro “escondido” parecendo que estava fazendo algo ilícito. Sempre era enroladinho na mão e ainda fazia sinal de silêncio para não contarmos. Confesso que amava ganhar isso. Comprava doce para a semana toda.

Me vem a lembrança nossa viagem a Aparecida do Norte, eu, a senhora e o vô. Foi a primeira vez que fui ao santuário. O vô te deu uma correntinha e eu achava linda. Eu nem lembro o que ele me deu, mas o que te deu ficou na memória, pois achei um ato tão fofo.

Quando vim para Araras a primeira vez, também foi com vocês. 02 de março de 1996. Dia em que os Mamonas Assassinas morreram. Eu, assim como toda criança era fã, então vim chorando e a senhora e o vô me consolando. Me levaram até no zoológico que tinha na cidade e para andar de pedalinho. Foram várias viagens juntas. São Paulo, viagens da terceira idade a qual eu sempre queria ir, pois suas amigas me davam balas e doces.

Cultos na Assembleia, a sua igreja de batismo. Íamos várias vezes e no fim tinha cantina para comprar salgado.

Na adolescência amava vir na sua casa. Arroz, feijão com pequi e bife cheio de alho. Ainda hoje sinto o gosto na minha boca. Nunca comi comida igual a sua. Era uma delícia, tinha gosto de casa de vó.

Quando casei, montou um enxoval lindo com toalhas de banho, toalhas de mesa e lençol, tudo escolhido com carinho e amor. Assim que inventei de abrir loja, me emprestou dinheiro dezenas de vezes. A última eu nem paguei, pois me falou que não precisava.

Até o primeiro brinco da Bianca, foi a senhora quem deu. Me deu 100,00 para comprar um de ouro para a menina.

Com o tempo a idade foi avançando e a senhora foi se esquecendo, mas sempre manteve um sorriso no rosto e os envios de beijos.

Nessa última internação de julho, não podia ver um médico ou enfermeira que agarrava a mão para beijar.

Sabe o que dói vó? É sentir que estou te perdendo. Mas agradeço a Deus por termos convivido durante todos os meus quase 35 anos e pelos meus filhos poderem ter conhecido a bisavó e convivido com ela.

Não vai ser fácil quando chegar a hora de dizer adeus. Por mais que a gente ache que estamos preparados, nem de longe estamos.

Que a sua passagem seja tranquila e que um dia possamos todos nos reunir novamente.

Te amo Vó.

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