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Impulsionados pela natureza

Amar, ainda que a tempestade


Encharque nosso verde leito


Enquanto as dálias florescem


Provendo a beleza desta tarde


Então a ambiência impulsiona o beijo


E, de repente, a vontade de viver cresce


Sob a cúpula de anil que nos reveste



Amar, ainda que o vento sopre


Fortemente nossos corpos gotejantes


E o mato açoite nossos calcanhares


Enquanto a matéria, lentamente, sobe


E etéreos, voamos pelos ares


Integrados à agitação da paisagem


Impulsionados pela natureza.



Amar, bailando na imensidão


Rodopiando a nossa dança louca


Enquanto o vendaval arremessa nossos trapos


E totalmente arrebatado de desejo


Troveja o céu azul da nossa boca


Embora o coração, de medo, esteja seco


E a força de amar ainda seja pouca.


Esse poema nasceu de um desejo súbito que senti de convolar núpcias novamente o que é bem natural hoje em dia. Mas, o que já não é muito comum, meu desejo era me unir carnalmente, como se fosse a primeira vez, com o mesmo homem com quem me casei há quase catorze anos, quando eu era praticamente uma menina. Ora, por mais que as pessoas digam que, com o tempo, o desejo arrefece e o amor desaparece, só de pensar no que já vivenciamos juntos, senti o desejo quase incontrolável de, arrebatada nos ares, me entregar novamente, como um presente vivo, ao homem que, ao meu lado, com os olhos marejados, assistia àquela cerimônia matrimonial, envolto em lembranças lembranças, talvez, tão doces quanto as minhas e, quero acreditar, com o mesmo desejo que eu.


Atualmente, vivemos a geração das festas de casamento mais suntuosas e das vidas conjugais mais pobres e vazias de sentido. As pessoas vivem, cada uma de per si, nutrindo altíssimas expectativas em relação ao outro ou simplesmente se entregam à primeira sensação de encantamento ante um terceiro, alguém que ouse ofertar amizade, alguém que pareça mais confiável, mais interessante, mais atraente que o cônjuge. Então, não existe entrega, mas enganando o outro, vivem também no autoengano.


O problema está justamente em valorizar as coisas erradas. O erro existe antes mesmo do começo da história. Bem, segundo Oscar Wilde o casamento é onde acaba o romance e a história começa. Claro que, com isso, ele quis dizer que a vivência do contrato destrói o pacto, que a crueza do dia a dia joga um balde fedido de lama sobre o mel da paixão que era eterna. Mas, se ele foi peremptório assim em sua época, o que diria se vivesse para ver o que um modelo tão rígido se tornaria num mundo tão líquido?


Conheço tantos que dizem: só caso quando tiver casa, carro, fazenda, piscina e, como nosso querido país é osso para quem tem que lutar sozinho (aqui é bem válida a máxima: quem não herda fica na merda), quando esses bens chegam (se é que vão chegar) o amor já se foi e o casal só permanece junto por apego à casa, ao carro, à piscina, à fazenda e até ao pet, que hoje também é objeto precioso de litígio, cada dia mais se multiplicam ações de divórcio com pedido de tutela antecipada consistente na busca e apreensão do Spitz alemão que ficou, injustamente, sob a guarda da “mãe” humana irresponsável, que não o leva para passear toda manhã e gasta o dinheiro da pensão alimentícia com produtos de beleza (digo isso porque se tornou tendência os homens contribuírem com valores irrisórios e ainda questionarem com o que as mulheres andam gastando o dinheiro da pensão alimentícia dos pets, cujo pelagem não está macia como estaria se os bichinhos estivessem consumindo a ração francesa certa).


Meu marido e eu, quando começamos nossa vida conjugal não podíamos nem morrer, porque nem vala a gente podia ocupar sem fazer uso de patrimônio alheio. Bem, cair morto, a gente cai em qualquer lugar, mas não é muito digno ser chutado de dentro da casa onde se mora de favor para ser comido pelos urubus na calçada. Enfim, eu tinha dezoito anos e não trabalhava, já ele: trabalhava, mas nada tinha. Lembro-me de quando se ajoelhava na igreja e mal conseguia se concentrar na prece de tanta vergonha, porque o sapato estava furado (que minha sogra não veja isso, para não morrer de vergonha, pois desde que deixou de vender picolé e passou a viajar pelo mundo, não se sente muito à vontade para falar desses dias de agruras, mas isso é outra história, voltemos à minha).


A questão é que, mesmo não tendo um pau para dar num doido, meu homem tinha vontade de ter um lar, desejo de ser pai, ímpeto de vencer, gosto por estudar e lutar. E um desejo, sabe, maciço e permanente, como disse o poetinha, isso ele tinha de sobra e foi o que me cativou, feriu meu coração que se dilatou para uma realidade totalmente nova e eu aceitei ser sua noiva depois de uma, uma semana de namoro. Já pensou se ele fosse um psicopata?


Mas, não era e, em meu coração, eu sabia que ele era o escolhido, o enviado, o preparado, o moldado pelas vicissitudes, da maneira que eu precisava, pois, tudo que pedi a Deus foi um homem que o amasse, eu sabia que se esse homem fosse temente a Cristo de verdade, sem joguetes, sem fingimento, sem barganha (hoje as pessoas tentam negociar com a fé, não é? E isso desperta ojeriza), se eu encontrasse esse homem, por difícil que fosse a vida, ele me amaria da maneira certa. Ainda que, às vezes, fosse um pouco intransigente, mas, até isso era necessário, pois, se Deus não dá asas a cobras, sabe o que está fazendo e eu tinha lá minha crises de altivez.


Nosso começo de vida conjugal foi difícil, mas não porque não tínhamos mesa, e não tínhamos, mas era muito bom sentar no chão para comer macarrão instantâneo tarde da noite; não porque não tínhamos sofá, e não tínhamos, tínhamos colchão e isso bastava, éramos como fogo e palha (ah, como foi bom casar apaixonada, compromissada com meus votos de permanência, comprometida com meu desejo de entrega, que experiência!) A dificuldade foi afinar os gênios, entender que nossa casa não era a extensão, só que mais pobre, da casa de nossos pais. Foi difícil porque a fé imatura nos fez intransigentes e autocentrados demais. Mas, desejosos que vivíamos de vivenciar algo verdadeiro, logo isso passou. Este ano completamos treze de vida conjugal e, pasmem, uma vida feliz. O pouco que temos, conquistamos juntos; o pouco que somos, somos um para o outro.


Sabe, não é preciso muito de material para viver bem, mas é preciso dar importância àquilo que tem valor, é preciso desejar a coisa certa. Sabe, como disse Kierkegaard: “casamento feliz é e continuará a ser a viagem de descoberta mais importante que o homem jamais poderá empreender”. Nós embarcamos de mãos dadas.


Débora Evelyn


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