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Ponto Certo (Tarcisio Moura)

Tal qual o vento traz o som aos nossos ouvidos, é assim que nos chega o amor. Eu já estava tão conformado com a minha vida amorosa indo de ladeira abaixo que nem notei a presença dele.

Era uma quinta-feira de muito sol, dezembro de 2015, horário de verão, cidade de Lins, interior de São Paulo. Eu estava esperando meu ônibus passar, o dia não tinha sido nenhum pouco fácil e tudo o que eu mais queria era chegar em casa. Sentado no banquinho e ouvindo música no fone, eu olhava todos aqueles carros passarem e, embora não dissesse nada nem fizesse nenhum sinal, pedia constantemente para alguma alma boa oferecer-me uma carona.

Não foi o que aconteceu. Tudo bem, nada que eu não estivesse acostumado. Apesar de cansado, estava contente. Nos dias em que meu humor não estava dos melhores eu teria ficado frustrado, pois, segundo minha concepção, até os cachorros que passavam dentro dos carros das madames pareciam zombar de mim. “Olha que bobo esperando o ônibus”, o latido deles parecia me dizer, ou “Parece que ele chupou limão, porque está com uma cara horrível”. Eu ria, ria muito, mas ria de nervoso.

Finalmente o Zé se aproximava com o ônibus, ou melhor dizendo, lata de sardinha. Íamos tão exprimidos que era um milagre nunca termos sofrido nenhum acidente ou alguém ter morrido pelo cheiro de pinga que, de vez em quando, algum passageiro exalava. A quantidade de pessoas quase sempre ultrapassava a capacidade do ônibus, mas aquele era o último horário e todos tínhamos que ir embora. O meu sentimento e de todos os demais podia ser descrito em uma frase rabiscada de caneta em um dos bancos: “Deus é fiel, mas andar neste ônibus é cruel”. Eu levantei, mas nem precisava fazer sinal pois o Zé já me conhecia. Tapando o sol do rosto com a mão, ao longe pude vi uma garota se aproximar. Coitada, ela vinha correndo igual uma louca. “Por mais que a minha situação esteja ruim, há sempre alguém que está pior”, pensei. E eu estava certo. Nada deixa a gente mais pobre do que ter que correr para não perder o ônibus. Ah, e a vergonha por ter perdido o ônibus é ainda pior.

– Espere que tem mais uma pessoa chegando – alertei o motorista, e ele aguardou. Graças a Deus não tinha muita gente, mesmo de pé era possível manter uma distância segura e se apoiar com elegância.

– Obrigada! – Ela disse ofegante ao colocar o primeiro pé nos degraus.

Depois de pagar pela passagem, a moça passou a catraca e ficou um pouco a frente de mim. A infeliz estava tão descabelada e suada que parecia ainda mais feia de perto.

–Obrigada também, moço! – Ela sorriu para mim. Agora, observando-a melhor, a aparência havia melhorado. Ela tinha cabelos castanho-escuro, olhos cor de mel e usava roupa social. Parecíamos ter a mesma idade: 18 anos.

– Não há de quê. – Respondi – Já aconteceu comigo.

– Como se não bastasse ser reprovada em uma entrevista de emprego, quase perdi o ônibus. Meu pai iria querer me matar.

– O importante é que tudo acabou razoavelmente bem. – Forcei um sorriso, pois não sabia o que dizer. Ela retribuiu, embora estivesse claro em seus olhos a infelicidade de não ter conseguido o emprego.

Eu queria dizer algo a mais, que tudo iria ficar bem, mas achei melhor ficar quieto, pois estava soando tudo muito clichê. Diminui o volume do meu fone em quase zero; já estava enjoado das mesmas músicas. A garota então colocou os dela nos ouvidos e pareceu desconectar-se do mundo. Eu nem precisei me esforçar para ouvira música dela, o som chegava claro aos meus ouvidos.

– Gosta de música árabe? – Perguntei.

Ela estava com a música alta, então eu precisei cutucá-la e repetir a pergunta.

– Minha paixão. – respondeu ela – Faço dança do ventre.

– Encantador! – Exclamei – Qual o seu nome?

– Isabela. E o seu?

– João Pedro.

– Ouça comigo, João – Ela ofereceu o fone e eu logo o coloquei em meus ouvidos. Parece esquisito aceitar esse convite, ela era praticamente uma estranha e isso sem mencionar as bactérias que eu iria contrair, mas mesmo assim eu aceitei.

– Vamos ter uma apresentação daqui duas semanas na Casa da Cultura daqui, caso queira ir.

– É claro que eu quero! – respondi na mesma hora.

E continuamos conversando sobre vários assuntos que nem me lembro mais. Ela era incrível, senti como se fossemos amigos a vida toda. Trocamos nossos contatos e, coincidência ou não, estudávamos no mesmo Centro Universitário.

Duas semanas depois eu estava lá, prostrado de pé em frente à Casa da Cultura. O céu estava limpo e várias estrelas já faziam morada ali. Isabela veio me encontrar, ela estava acompanhada de outras amigas que também dançariam na apresentação. Eu estava com meu melhor amigo, Estevan, o qual fez a gentileza de deixar-me dormir em sua casa.

– Que bom que você veio! – disse-me ela.

– Ele é mais alto do que você havia mencionado – comentou uma amiga.

– É muita gentileza sua! – Agradeci o elogio.

Isabela deixou um lugar reservado para mim, dessa forma eu poderia ter uma vista privilegiada da apresentação.

As cortinas se abriram e tudo começou. Era um total de dez moças que dançavam ao som de “Allah Allah Ya Baba”, mas, em minha opinião, Isabela era o destaque. Sua roupa era azul-turquesa, bordada com as mais lindas pérolas. Os cabelos soltos e a maquiagem realçavam sua beleza. Além disso, os olhos dela pareciam estar me enfeitiçando. Ela era linda e tinha presença no palco. Os movimentos do quadril eram de extrema perfeição. Ouso dizer que nunca em toda minha vida havia encontrado uma garota com tamanha beleza. Não condiz em nada com nosso primeiro encontro no ônibus. Eu estava hipnotizado e, também, apaixonado. Sentia-me o próprio rei Salomão e Isabela poderia ser a minha princesa se assim quisesse.

Fim da apresentação. Não contive a alegria e levantei-me para aplaudi-las. Isabela veio me agradecer mais uma vez e eu a convidei para sair ainda naquela noite. Ela logo aceitou. Estevan saiu com uma das amigas dela.

Fazia calor e nós passeávamos pela praça Joaquim Piza. A Catedral de Santo Antônio toda iluminada e os enfeites de Natal pendurados nas árvores, só deixavam o ambiente ainda mais romântico. Eu pensava comigo: como não amar essa cidade? Como não me apaixonar por Isabela? Eu já imaginava nosso futuro ali, a igreja toda enfeitada para o nosso casamento. Andávamos lado a lado e eu queria dar-lhe minha mão, mas Isabela hesitava e sorria, um tanto tímida, enquanto o vento fresco jogava seus cabelos para trás. Será que ela também estava apaixonada?

Comprei dois sorvetes e a convidei para sentar-se em um dos bancos da praça. Era o nosso momento. Rimos, conversamos e arriscamos ensaiar uma dança. Pessoas iam e vinham, mas eu mantinha minha concentração naquela que já era dona do meu coração. Quando, espontaneamente, nossos olhos se cruzaram, tive a certeza de que ela sentia o mesmo que eu. Então falei:

– Você é incrível! – E roubei-lhe um beijo. Isabela retribuiu.

– Eu não lembro qual foi o ônibus que eu peguei, mas você foi o ponto certo em que cheguei. – Beijamo-nos novamente.

Eu poderia dizer um milhão de outras palavras para retribuir, mas parecia que nenhuma seria suficientemente adequada para expressar minha emoção. Uma canção tocava suave em algum lugar distante, ou nem tão distante, pois era a minha cabeça que estava nas nuvens. A mais bela sinfonia de letras, sons e emoção.

Aquela noite poderia durar para sempre. Foi a melhor noite da minha vida. Estávamos prestes a nos despedir quando, repentinamente, Isabela sumiu. Depois todo o resto ficou escuro, e mais escuro. Eu gritei “Isabela”, mas ela não respondeu. Logo depois acordei e tudo o que me lembro é de alguém batendo nas minhas costas.

– O ônibus chegou! – Disse-me uma garota.

Fiquei um pouco confuso a princípio, mas corri e entrei no ônibus. Estava lotado, um calor forte, todos espremidos e eu ainda desnorteado. A moça que me acordara estava logo atrás de mim. O motorista freou bruscamente o ônibus para evitar uma colisão, o que fez a moça se desequilibrar e derrubar suas coisas em cima de mim.

– Mil desculpas – Ela lamentou.

– Tudo bem, ninguém esperava por isso. – Brinquei. – A propósito, obrigado por ter me acordado. – Agradeci, entregando-lhe algumas de suas coisas.

– Não há de que. – Ela sorriu – Prazer, sou Isabela!

– Isabela?! – Olhei espantado. – Sou o João Pedro. – Sorri de volta.

Começamos a conversar. Naquele dia eu conheci a mulher da minha vida duas vezes. Ela estava ali o tempo todo e eu não a vi. Agora estamos no mesmo ônibus, aguardando o ponto certo para desembarcar.




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