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  • Jéssica Milato

Texto vencedor BSB - Thriller Psicológico

Atualizado: Mai 27

Por Laércio


Santos e demônios



Incrível a dimensão dessa imagem de Jesus ao lado direito de quem entra na Igreja, é do meu tamanho. Era o dobro! Não apenas ficou muito menor como o rosto também mudou, não vejo mais o sorriso sarcástico que fazia-me virar a cara cada vez que entrava, levando um discreto e dolorido beliscão da minha madrinha.

Não é apenas a estátua de Jesus que mudou de tamanho. Diminuíram também as outras imagens, os anjos de mãos postas no alto das colunas que sustentam o teto, com pinturas que sempre vi como assustadoras, de guerras e lutas, derrotas e vitórias, cruzes e martírios, espadas e lanças. E sangue, sempre muito sangue nas pinturas, nos quadros, no outrora enorme Jesus que encontra-se ainda crucificado ao fundo do altar, cabeça pendida e olhar cabisbaixo. Não foram apenas as imagens e colunas, todo o ambiente diminuiu de tamanho.

Vejo também que as imagens não se movimentam, como vi fazerem tantas vezes. Eu era criança e rezava muito, todos achavam bonitinho, mas o que buscava era manter os olhos fechados, para não ver os santos mudarem de expressão, suas bocas mexerem-se, emitindo palavras sujas, seus olhos virarem-se para lá e para cá e soltarem faíscas nervosas na direção de uma ou outra pessoa. Quando o Padre Malaquias começava sua pregação, algumas imagens ficavam tristes, outras com rosto de ira, algumas até saíam da Igreja. Às vezes eu falava isso com minha madrinha e a resposta eram mais beliscões. Nessas ocasiões, reforçados pelas suas afiadas unhas fúngicas, que pareciam um canivete. 

Entro na Igreja doze anos depois, com certo temor. Apesar de não morar distante, nunca quis regressar.  Para mim, esse sempre foi um lugar aterrorizante.

Morei aqui em São Pedro até 1978, quando fui mandado por minha madrinha, que Deus a tenha, para um internato, estudar para Padre. Hoje compreendo que era um fardo grande para ela, pobre e viúva, criar um menino que caiu-lhe nas mãos por obra e graça de um malfadado destino. Ela tinha me visto apenas nos meus primeiros dias, quando meus pais mudaram-se. Um mensageiro desconhecido trouxe-me de volta, poucos meses depois, avisando do falecimento trágico dos meus pais, afogados em um açude. Assim ela contava.

A gota d’água para me mandar embora caiu após o desaparecimento do meu melhor amigo, o Marquinho. Estávamos sempre juntos, ele era mais novo que eu, mas forte e corajoso, me protegia sempre que se fazia necessário. Marquinho era o único que acreditava em tudo que eu contava, nas minhas visões. 

Quando ele sumiu, passei a ver sangue em todas as hóstias que eram dadas pelo Padre Malaquias. Contei isso para a madrinha e uma semana depois ela comunicou que eu iria para o internato, por sugestão do Padre. 

No seminário, parei de ver o que via na Igreja, mas meus tormentos não cessaram. Agora, eu tinha sonhos, ainda mais assustadores. De noite, no quarto, anjos e imagens vinham conversar comigo, sempre mais feios do que quando em seus lugares, braços arrancados, feridas abertas, sangue, sempre muito sangue, escorrendo. Sonhava também com o Padre Malaquias, mas com rosto de lobo. Ele sempre correndo atrás de mim, buscando alcançar-me com suas garras afiadas, no último momento era salvo pelo Marquinhos. Fiquei durante dois anos sendo submetido a rezas e penitências, unguentos e talismãs, até que optaram por me levar a um médico. Por pouco não me mandaram a um hospício. Trocaram o hospício por remédios, passei a adolescência dopado. Agora, só tomo medicamentos ocasionalmente.

Ainda tenho visões, mas aprendi a controlá-las e, principalmente, a não falar nada para ninguém.

Agora mesmo, aqui na Igreja, tudo está normal, não vejo nada demais. Mas sinto... Sinto medo. Sim, essa Igreja me dá medo. Sacudo a cabeça. Sem querer, falo alto: “que bobagem”. 

— O que é bobagem, meu filho? — ouço e, antes de mim, meu corpo reconhece a voz, com um calafrio que percorre todo meu sistema nervoso.

— Padre Malaquias – balbucio, buscando acalmar ao menos meus lábios.

— Você é o?

— Sou o Mateus, o senhor não lembra de mim.

Vejo um sorriso tênue no seu rosto, sorriso curioso, de graça alcançada...

— Sim, não lembro... mas bem-vindo à casa de Deus — falou e virou-se, corpo curvo, retornando à Sacristia.

O medo, que ainda caminha pelo meu corpo, obriga-me a sair. Sento, ofegante, em um banco frio, na praça em frente à igreja. Vejo a mesma casa paroquial, grande, toda de madeira, pintada de azul claro. De repente recordo-me as vezes que entrei nela com minha madrinha. Quando ela mandava eu ficar na sala para ir rezar no quarto com o Padre, eu sentia um cheiro de cigarro e ouvia um barulho de chaves. 

— Você e suas doidices, o Padre mora sozinho e nem fuma! — respondia ela. 

— As pessoas dizem que eu ouço o Padre Marcos, que costumava andar para lá e para cá com um molho de chaves e fumava muito.

— As pessoas falam muita bobagem.

Uma vez, fui colocado de castigo em um quarto da casa paroquial. Foi no dia que perguntei à madrinha porque eles falaram do meu pai e da minha mãe. Recordo que ouvi o Padre dizendo que fez o que precisava ser feito, que eles sabiam de tudo.

Agora, aqui na praça, todas essas lembranças voltam e lastimo não ter comigo meus remédios. Achei que estava preparado para as visões, vejo que não estou.  

Decido ir comer algo. Sento-me no restaurante. Olho uma foto velha na parede e vem à minha mente o quadro de um lago com manchas de sangue. Conheço esse local da foto, é o lago da gruta, considerada sagrada por todos aqui na cidade. 

— O que vai querer? — pergunta o filho do dono, me resgatando do lago.

Peço uma taça de vinho, almoço o que me é oferecido. Ignoro que não devo beber e, de sobremesa, peço outra taça e uma boa dose de calma.

No início da tarde, decido retornar à igreja, preciso desvencilhar-me dessas antigas sensações. 

Evito que o medo outra vez entre comigo. Vejo que me acompanha, nem tão de longe... sento-me em um dos bancos de madeira, decido rezar, resisto ao desejo de me ajoelhar. Entro em certo torpor. A igreja agora está cheia. O Padre reza, uma língua estranha, parece latim. Olho ao redor e vejo todos com roupas antigas. Meus pais ao meu lado. Fixo-me no Padre e reconheço aquele rosto, busco na memória e acho. É o rosto do Marquinhos. Perto dele, um jovem sacristão, de costas para o público. Estão todos contentes, mesmo sem entender o que ele fala, vejo que esse senhor com o rosto do Marquinho é querido por todos. Na verdade, menos por um, pelo sacristão que está de costas. Não sei como, mas sei que ele não gosta do Padre Marcos surpreendo-me por saber seu nome. Nesse mesmo torpor, agora não estou mais na Igreja, estou na gruta, o sacristão empurra o Padre dentro do lago, ele não sabe nadar, o sacristão vira-se com cara de missão cumprida, fixa-se em mim e vem ao meu encontro, fisionomia crispando de ódio por ter sido visto. É ele, sim, é o Padre Malaquias, posso reconhecê-lo nesse rosto muito mais jovem.

— Visitando o passado, Mateus? — ouço a mesma voz, sinto o mesmo arrepio e sou despertado da minha dormência.

Viro-me atônito. Demoro a responder. Minha cabeça parece girar, vejo as imagens moverem-se na minha direção, anjos com rostos de assustados, santos endemoniados, o crucificado outra vez sangrando, a imagem de Jesus na entrada vira o rosto para mim e sorri, agora é um sorriso satânico. Sinto-me tonto.  

Abro os olhos, receoso. Reconheço esse quarto. Pequeno, de madeira, pintada de azul claro, com uma cama de solteiro, uma mesinha e um antigo armário de duas portas. Estou na casa paroquial. Pela janela fechada entra algo de luz, mas parece ser luz noturna, alguma lâmpada acesa ao longe, quem sabe raios da lua cheia.

Lembro do acontecido, tento retomar o elo perdido e não consigo. Que visão foi aquela? Quem era aquele Padre com o rosto do Marquinho, o sacristão com cara de Padre Malaquias? O mais intrigante: porque o padre perguntou se eu havia visitado o passado? Ele viu minha visão?

Sem saber o que é verdade ou imaginação, tento levantar. Não consigo, estou ainda tonto, sinto os músculos anestesiados, não obedecem às minhas ordens. Olhos fechando, vejo uma xícara vazia no chão, ao lado da cama, e concluo: ele deve ter me dado algo para beber...

Outra vez desperto. Devo ter dormido, mas não sei quanto tempo. Outra vez tento e não consigo levantar. A luz desapareceu, em meio ao breu total ouço um barulho. São passos sobre a madeira. 

Junto aos passos, barulho de chaves. É o mesmo barulho que ouvia quando criança, que diziam ser do fantasma do Padre Marcos. Os passos são muitos, vão e vêm, junto ao ruído do chaveiro. Agora sinto também o cheio de cigarro.

Busco pensar em um plano, preciso sair dali. Tento mover-me e não consigo. Não sei se é o chá ou o medo que me paralisa. Passos, cigarro, chave, cansaço, torpor, tudo confunde-se na minha mente. Outra vez vejo o lago, agora meu pai e minha mãe estão lá, não sou eu, são eles que recebem os olhares furiosos do sacristão, que atira-se contra eles. Acerta meu pai com uma paulada, depois minha mãe, e arroja seus corpos ao mesmo lago.

Ouço tocarem na porta... mesmo sem ver, percebo a maçaneta girando. Alguém entrou. O Padre Malaquias, sim, é ele. Fala meu nome, não respondo, finjo que estou dormindo.

— Melhor assim, dá menos trabalho. Vou ter que te mandar para o mesmo inferno onde estão seus pais, quem mandou ser como eles e ver tudo? Você sabe demais...

Sinto ele tocando meu rosto... não consigo reagir, sigo imóvel. Ouço outros passos, tento gritar, mas suas mãos grandes e enrugadas agora apertam meu pescoço.

Outras pessoas entram no quarto. Ouço barulho de chaves, sinto cheiro de cigarro e de lodo. Começam a falar em sussurros, vozes roucas:

— Vocês?

Sim, não toque nele.

— Já me livrei de você duas vezes, mais uma não fará diferença.

— Você não pode mais nos fazer mal. E não fará a ele!

— Irei matá-lo, nem que para isso tenha que matar vocês de novo. 

O quarto parece ainda mais escuro, além de luz falta também ar. As mãos apertam ainda mais meu pescoço antes de soltá-lo. Ouço gritos que não distingo, antes de um silêncio sepulcral. Alguém se aproxima e põe a mão no meu bolso, enquanto sua voz firme e suave fala aos meus ouvidos:

— Eu, teu pai e tua mãe estaremos por perto, você nunca ficará sozinho. Agora, junte todas as tuas forças e saia daqui.

— Quem é você?

— Teu amigo de sempre...

Desperto ouvindo minha própria voz:

— Marquinho?

É dia. Um quarto todo branco me acolhe. 

Uma enfermeira muito simpática abre a porta e me cumprimenta:

— Como passou a noite, Mateus?

— O que estou fazendo aqui?

— Você teve uma das suas convulsões, foi encontrado de tarde no banco da praça. Andou bebendo de novo... foi trazido para cá às pressas com uma parada respiratória. Mas agora já está tudo bem, dois dias e você poderá ir para casa.

Tento concatenar meus pensamentos. Sinto-me ainda em torpor. Ouço barulho lá fora, pergunto o que houve. A enfermeira responde:

— O Padre Malaquias foi achado caído em casa hoje de manhã. Trouxeram ele para cá, está ferido e desacordado.

Assustado, silencio. Aos poucos, vou recordando-me do que parece foi só um pesadelo.

Lembro-me das últimas palavras que ouvi e, involuntariamente, ponho a mão no bolso. Surpreendo-me ao encontrar algo que nunca havia visto: uma medalhinha de São Marcos.

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