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  • Jéssica Milato

Texto vencedor Distopia - BSB

Por Ilma Pereira

Tema: Pandemia

Gênero: Distopia


Desejo


— Pai,vó, venham ver, o vovô acordou!

Todos acudiram. Era verdade, o avô estava sentado, vivinho da silva.

— Marina, minha velha, o que aconteceu? Por que tá todo mundo me olhando assim?

— É um milagre, é um milagre! — repetia a mulher, debulhada em lágrimas.

O filho se acercou dele:

— Pai, o senhor esteve em coma por 15 anos.

— Cadê meu cachorro? Ele sempre vem me ver pela manhã!

O filho explicou:

— Pai, aconteceram muitas coisas. Estamos vivendo uma pós-pandemia, estamos em 2025, o mundo todo foi atacado por um vírus, há muita fome e...Tivemos que entregá-lo para a fábrica de alimentos do governo.

— Ah! Deixa de papo furado! Quer dizer que agora comemos cachorro...Você só pode tá de brincadeira.

E decidido, ordenou:

— Tira essa coisa de mim, quero me levantar.

Uma moça se adiantou e começou a retirar o cateter em seu braço:

— E essa bonitona, quem é?

— Sofia, sua neta.

—Meu Deus, você virou um mulherão, devia ter quatro ou cinco anos, nem lembro direito. Você sabe o que está fazendo? — E tentou puxar o braço.

— Vovô, hoje tenho 20 anos, e estou cursando enfermagem à distância. Em toda casa agora alguém precisa ter uma profissão relacionada à saúde.

— Já casou?

— Nada, com essa pandemia não podemos nem mais beijar na boca.

— E como se namora?

— Ah, você nem imagina que trabalho que dá, tem que investigar a família, ver se estão na lista negra do governo por desobediência, se menosprezaram o ataque do vírus no começo da pandemia…

— Se não pode nem beijar, imagino o resto…

— É, meu velho, os namoros de hoje estão parecidos com os de nossos avós, à distância — esclareceu sua esposa.

— Conversa fiada, um vírus pode fazer isso tudo?

— Shhh! — gritaram todos ao mesmo tempo.

— Não podemos desprezar o poder destruidor do vírus, senão seremos abduzidos para o-lugar-que-não-tem-volta. — O pânico estava estampado no rosto de cada um.

O velho pulou da cama com muita esperteza, usando apenas uma camisola de hospital. Há alguns meses, o médico que o assistia deixara de vir, porque precisava se dedicar a outros pacientes mais promissores. Os remédios há tempos se acabaram e Sofia ministrava apenas o que restara, o soro. Pelo visto, o velho Everaldo se dera muito bem com o que lhe corria agora pelas veias.

— O que eu mais quero agora é dar um pulo no boteco para tomar uma.

— Não, Everaldo, sair de casa agora é proibido — informou a esposa.

— Quê?! Não posso sair para tomar uma cervejinha?!

— Não, pai, ninguém sai de casa, a não ser para trabalhar dois dias por semana ou ir ao supermercado ou farmácia. Quem pode, trabalha de home office, quer dizer, trabalha de casa.

— Que se dane! Eu lá tenho medo de um vírus? Ele não me pega não, sou macho! Quero só tomar uma cervejinha, é rapidinho.

— Se o senhor sair sem autorização, ficaremos trinta dias sem poder ir ao supermercado — informou o neto, sempre faminto.

— Então como consigo uma gota de álcool?

— Álcool somente para limpar as mãos ou embalagens. Hoje álcool em gel vale ouro.

O avô, observando o quarto, viu um vidro de álcool líquido na cabeceira de sua cama, que era usado para sua assepsia. Deu um salto e se agarrou a ele, arrancando a tampa e metendo o gargalo na garganta.

Foi um tendepá!

Todos se engalfinharam, tentando tomar a última garrafa de álcool da casa da mão dele. O filho, por ser mais forte, conseguiu agarrar a garrafa e salvar metade do conteúdo. O resto espalhara-se na camisola do pai que teve que contentar em só cheirar a roupa.

Deixou a mãe cuidando dele e voltou ao seu serviço. De repente, um grito:

— Fernando, acode. Seu pai quer sair pra rua.

O filho deu uma carreira e interceptou o pai que já estava com a mão no corrimão para descer as escadas do prédio. Conduziu-o com carinho, porém com firmeza, para dentro do apartamento, repreendendo-o:

— Que bonito, hein, seu Everaldo, com o bumbum de fora tentando fugir?

— Nem percebi que ainda estou com essa roupa. Bem que senti um ventinho...

— Pai, todo mundo agora é vigiado o tempo todo, eles estão sempre de olho na gente.Todo cuidado é pouco.

— Larga a mão de ser besta, menino. Como que eles vão vigiar dentro de casa?

Pacientemente, Fernando mostrou:

— Isso é um telefone celular, mesmo desligado, ele ouve o que falamos; quando ligado, ele nos permite ver e sermos vistos de qualquer lugar do mundo. Então, somos vigiados vinte e quatro horas por dia.

Everaldo se lembrava vagamente desse objeto, nunca quisera um, agora é que não ia querer mesmo.

— Ah, manda esse povo ir à merda, manda ir vigiar a mãe deles.

— Pai!

— Mas, que miséria!

— Miséria, vô? Espera a hora da comida — informou-lhe o neto.

Hora do almoço, Everaldo não entendeu aquela tristeza, só a neta parecia feliz. Era o dia de Sofia: podia tomar banho, lavar os cabelos, usar papel higiênico e comer um bife.Os outros contentavam-se em dividir uma omelete e limpar com jornal no resto dos dias.

Everaldo, após esbravejar, foi aconselhado a esperar seu dia D: seria o último da fila. Nem adiantou clamar que era o chefe daquela casa. Resolveu então andar pelo apartamento.

— Uai, não era aqui que ficava minha coleção de relógios? Minhas pedras semi-preciosas? Meus carrinhos?! — perguntou, atônito.

— Eles levaram em troca de …

— Em troca de quê, seu cabeça de vento? Não sabia que valiam uma fortuna, hein, Marina?

—Sim, meu querido, nós sabíamos, por isso, em troca de você ser cuidado aqui no apartamento, de não ficar jogado num hospital qualquer.

— Queria estar morto pra não ver um desperdício desses. Pra que fui acordar do coma, meu Deus?

Deu mais umas voltas pelo apartamento e de repente se lembrou:

— E sua mulher, Fernando?

Fez-se um silêncio constrangedor. Uns olhavam para os outros, ninguém falava.

— O que aconteceu, gente?

Fernando gaguejou:

— É q-que ela hoje está realizando tarefas subalternas, lavando os banheiros dos nossos dirigentes, mais tarde estará de volta.

— Mas o que ela fez? Xingou a mãe de alguém?

— Sim…

— Eita! Mas eu só queria uma cervejinha, jogar uma pelada, passar na casa do...

O filho sentiu uma tristeza ao ver o pai ali, recém-saído do coma, ansiando por viver uma vida que não existia mais.O velho nunca fora um beberrão, apenas gostava de uma cervejinha. Lembrava-se dele, cuidadoso com os filhos, sempre presente, sempre atencioso em comemorar cada vitória deles. Foi justamente, num desses momentos, em que festejavam a promoção dele, Fernando, para gerente da concessionária onde trabalhava, que seu pai tropeçara na hora do brinde, com o copo na mão e sofrera uma queda que resultara num traumatismo craniano. Daí o coma.

Estava nesse dilema, quando tomou uma decisão que, com certeza, afetaria a mesa deles e dos familiares nos próximos meses.Usando sua quota de 2 ligações rápidas por mês, ligou para os dois irmãos e, juntos, compraram uma dúzia de cervejas.Comemorariam a volta do pai ao mundo dos vivos. Não estiveram reunidos nos últimos anos, mas agora estariam mais que unidos: uma família completa novamente. Juntos, enfrentariam aquela provação e se arriscariam a ser felizes, pelo menos uma vez na vida.


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